No artigo anterior, falei sobre rimas, a percepção de que palavras terminam com o mesmo som. Agora, o movimento é o inverso: a aliteração é a percepção de que palavras começam com o mesmo som.
"Sapo, sapato, sala." "Boa, bola, boca." "Faca, fita, figo." Para um adulto, perceber essa semelhança parece simples. Para uma criança pequena, ela exige o mesmo tipo de habilidade que a rima: a capacidade de ouvir a palavra como objeto sonoro, separando o som do significado.
Vale uma precisão importante: a aliteração não exige que as palavras comecem com a mesma combinação de consoante e vogal. Ela exige a repetição de sons consonantais semelhantes ou idênticos em palavras próximas, geralmente no início delas. "Sapo" e "sala" aliteram, mesmo que a vogal que vem depois seja diferente. O que está em jogo é o som inicial, não a sílaba completa.
Se na rima a atenção vai para o final da palavra, na aliteração ela vai para o início. As duas habilidades desenvolvem a capacidade de perceber que as palavras têm partes sonoras, cada uma por um caminho diferente.
Rima (o final): trabalha a percepção dos sons finais, a partir da vogal tônica. Ajuda a criança a agrupar palavras por suas terminações (canção, coração, balão), facilitando a percepção de padrões rítmicos.
Aliteração (o início): foca na repetição de fonemas consonantais no início das palavras (O rato roeu a roupa do rei de Roma). Desenvolve a sensibilidade para o som inicial, um passo importante para a posterior segmentação de fonemas.
A aliteração está em todo lugar. Em trava-línguas e em cantigas infantis que repetem sons iniciais ao longo dos versos. "Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar": o som inicial se repete e chama atenção para si. Na literatura infantil, Cecília Meireles é uma das autoras que mais explora esse recurso. O poema "Colar de Carolina", por exemplo, explora a repetição do som inicial presente em "Carolina" e "colar" ao longo dos versos, um uso intencional da aliteração que encanta crianças e adultos. Vale procurá-lo e lê-lo em voz alta com uma criança. O efeito sonoro é perceptível mesmo para quem ainda não sabe nomear o que está ouvindo.
Algumas formas simples de estimular a aliteração no cotidiano:
Durante o dia, ao nomear objetos, brincar de encontrar outros que começam igual: "Olha o sabão, sabonete, começam com o mesmo som!" Não precisa ser uma atividade formal. Pode acontecer na mesa do jantar, no banho, no carro. O que importa é direcionar a atenção para o som inicial.
Trava-línguas são recursos fonológicos por excelência. "Sapo Jururu, sapeca e sagaz, sobe no sapê, salta e cai de costas." Brincar com trava-línguas em voz alta, devagar e depois rápido, treina a percepção dos sons iniciais de forma lúdica.
Vale retomar aqui uma distinção importante do artigo anterior: aliteração e rima são habilidades diferentes. Aliteração é sobre o som inicial. Rima é sobre o som final. "Bola e banana" aliteram, começam com o mesmo som. "Bola e cola" rimam, terminam com o mesmo som.
As duas habilidades, rima e aliteração, compõem o nível mais inicial da consciência fonológica, aquele em que a criança começa a perceber que as palavras têm sons que podem ser observados. Elas preparam o terreno para o próximo passo, que é perceber que a fala é composta por unidades ainda menores: as sílabas.
Pergunta de aplicação: Quais músicas, histórias ou brincadeiras que você já usa com crianças contêm aliterações? Você já havia percebido esse recurso antes de ler este texto?
O que você pensa a respeito disso? Qual é a sua experiência?
1 Adams, M. J., Foorman, B. R., Lundberg, I., & Beeler, T. Consciência Fonológica em Crianças Pequenas. Rio de Janeiro: Artmed. A obra apresenta rima e aliteração como habilidades do nível inicial de consciência fonológica, com atividades progressivas para estimulá-las em crianças pequenas.
Leituras que aprofundam este tema
A referência usada nesta série. Apresenta rima e aliteração como habilidades complementares do nível inicial de consciência fonológica, com atividades progressivas para estimular cada uma delas em crianças pequenas.
Esta obra vai ajudá-lo a:
- → Compreender a diferença entre rima e aliteração e como estimular cada habilidade de forma intencional
- → Planejar atividades progressivas que trabalham o nível inicial da consciência fonológica com crianças pequenas
- → Identificar recursos já presentes no cotidiano (músicas, trava-línguas, brincadeiras) que desenvolvem essas habilidades
Este livro acompanha canções que trabalham intencionalmente a consciência fonológica em crianças pequenas, incluindo rima e aliteração. É um recurso para pais e educadores que querem estimular essas habilidades de forma lúdica e musical. Não está disponível na Amazon, mas vale buscar em livrarias especializadas em educação ou diretamente com a editora.
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Profissional de aprendizagem e desenvolvimento com atuação em T&D corporativo e alfabetização. Especialista em design de experiências de aprendizagem e método fônico. Escreve sobre o que a ciência da aprendizagem pode fazer pela educação de adultos e crianças.
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