Se eu te pedir para imaginar uma cadeira, provavelmente você vai pensar em algo com quatro pernas, assento e encosto. Talvez de madeira, talvez com almofada. Os detalhes variam, mas a estrutura é parecida para a maioria das pessoas.

Agora, se eu te pedir para imaginar uma criança sendo alfabetizada, o que aparece? Provavelmente uma sala de aula, uma criança sentada com lápis na mão e papel na frente, talvez um quadro com letras e uma professora apontando para o alfabeto na parede.

Essa imagem tem relação com o que entendemos que alfabetização é. E ela não está errada. Mas ela é só parte de um processo cujo início não começa com a apresentação de letras.

O processo de aprender a ler começa muito antes dessa cena. Começa em conversas, em músicas, em histórias contadas em voz alta, em brincadeiras com palavras. O processo de alfabetização com maior respaldo científico não parte das letras. Ele parte da percepção e da manipulação dos sons da fala, e o nome que se dá a isso é consciência fonológica. Neste texto, vou abordar uma das habilidades que compõem essa consciência, e que começa a se desenvolver muito antes de a criança chegar à sala de aula.

Essa habilidade é a consciência de rimas. "Gato" e "pato". "Flor" e "amor". Sabemos bem: rima é a repetição de sons iguais no final de duas ou mais palavras. E a consciência de rimas é a percepção de palavras que terminam com o mesmo som. Para uma criança pequena, perceber que duas palavras compartilham um som no final é uma habilidade. É uma capacidade de prestar atenção no som da palavra, e não apenas no seu significado.

Essa mudança de foco, do significado para o som, torna a rima uma das portas de entrada da consciência fonológica. Perceber que "bola" e "cola" rimam pode parecer trivial. Mas o que está acontecendo ali é que a criança começa a ouvir a palavra pelo som, não só pelo significado. Essa é uma das primeiras habilidades fonológicas, e ela prepara o terreno para o aprendizado da leitura. Para uma criança pequena, a palavra "bola" é apenas o objeto físico com o qual ela brinca. A palavra, para ela, é um bloco sonoro único, sem partes separáveis. Perceber o som "ola" dentro de "bola", e reconhecê-lo em "cola", exige um salto de abstração fundamental para a alfabetização.

Por que a rima é um marco no desenvolvimento?

E essa é uma habilidade que não precisa esperar a escola. Pode ser estimulada muito antes, em casa, no dia a dia. Algumas formas simples que estimulo no cotidiano:

Exemplo — Rimas em objetos do dia a dia

Ao nomear objetos ao redor, busco palavras que rimam com eles, ainda que de brincadeira: "Olha o pote! Pote rima com... bote!" Isso cria a associação entre objetos concretos e o som das palavras, sem exigir nenhuma compreensão abstrata.

Exemplo — Músicas e histórias rimadas

Cantigas infantis tradicionais são, quase sempre, repletas de rimas. Cantar com a criança e de vez em quando parar para destacar "essas duas palavras rimam, sabia?" transforma uma atividade corriqueira em estímulo fonológico. "A baleia é amiga da sereia"... Para e pergunta: baleia, sereia — você ouviu? Os sons do final são parecidos. Às vezes a criança percebe antes de você terminar a frase.

Exemplo — Pular quando a palavra rima

Um jogo simples: falar pares de palavras, para a criança pular quando elas rimam. "Bola, Cola" — pula. "Bola, Chinelo" — não pula. Vale atenção na escolha dos pares: rima é sobre o final da palavra. "Bola" e "Cola" rimam porque terminam igual. "Bola" e "Boneca" não rimam, ainda que comecem com o mesmo som, pois isso seria aliteração, uma habilidade fonológica diferente. Funciona como brincadeira, mas treina diretamente a habilidade de identificar a semelhança sonora entre palavras.

Nenhuma dessas atividades exige muito planejamento, materiais difíceis ou muito tempo. São interações intencionais em momentos do dia a dia, enquanto se brinca com a criança em qualquer hora e lugar. O que muda é a intencionalidade: prestar atenção ao som, e não apenas ao sentido, com frequência suficiente para que a habilidade se desenvolva.

Vale uma ressalva importante: a consciência de rimas não garante, isoladamente, que a criança vá aprender a ler com facilidade. Ela é uma entre várias habilidades fonológicas que, juntas, sustentam esse processo.

Pergunta de aplicação: Você já brincou com rimas com alguma criança, sabendo que elas eram importantes para o processo de alfabetização? Que outras brincadeiras do seu cotidiano poderiam ser adaptadas para desenvolver essa habilidade?

O que você pensa a respeito disso? Qual é a sua experiência?

1 Adams, M. J., Foorman, B. R., Lundberg, I., & Beeler, T. Consciência Fonológica em Crianças Pequenas. Rio de Janeiro: Artmed. A obra organiza as atividades de estimulação fonológica em ordem progressiva de complexidade, começando pela percepção de rimas e palavras.

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Capa do livro Consciência Fonológica em Crianças Pequenas
Consciência Fonológica em Crianças Pequenas
Marilyn Jager Adams, Barbara R. Foorman, Ingvar Lundberg e Terri Beeler

A referência usada nesta série de artigos. Apresenta atividades estruturadas e progressivas para o desenvolvimento de cada uma das habilidades fonológicas, incluindo rimas, sílabas e fonemas, organizadas por ordem de complexidade.

Esta obra vai ajudá-lo a:

  • Reconhecer as etapas do desenvolvimento da consciência fonológica, da rima à manipulação de fonemas
  • Planejar atividades práticas e progressivas para cada faixa etária
  • Diferenciar o que cada habilidade fonológica exige da criança, evitando atividades fora do momento adequado de desenvolvimento
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Gabi Resende
Gabrielle Resende

Profissional de aprendizagem com atuação em T&D corporativo e alfabetização. Especialista em design de experiências de aprendizagem e método fônico. Escreve sobre o que a ciência da aprendizagem pode fazer pela educação de adultos e crianças.

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